Thursday, December 18, 2008

A Lágrima de um Diabo


Deslumbrado pelo incerto

Fui cortando caminhos avulsos
Procrastinando as cicatrizes
Precedendo os sangramentos
Desatinando com o relento
Expelido por mim mesmo
Despia-me desatento
E cobria-me de pudor
Mesmo sem tapar a dor
Da consciência recobrada
Tardia e redobrada
Clamante e atroadora
Aos ouvidos do escrúpulo
Que nada pôde fazer.

Quando vi, ali estava,
Sob os olhos do pecado
Encarando o Diabo
Provocando a sua ira
Distorcendo a sua mira
Ciente das armadilhas
Que eu armara com desvelo.

Só após ser derrotado
Percebi, sobressaltado,
Que o inferno era um ermo
E ao lutar contra o Diabo
Eu perdera pra mim mesmo!

Monday, October 20, 2008

Alvorado


"Nem percebi o passar das horas até a alvorada incendiar o silêncio do meu quarto, invadindo a seda crua rubra empoeirada e refletindo-a em minha palidez. Minha face já desfigurada. Meu corpo inerte transpirava a agonia recente da noite em claro. Eu era todo vestido em panos sujos - mais limpos que eu mesmo, em meus mais gloriosos dias. Era oco e opaco, ser livre encarcerado. A infâmia acompanhava-me, zelosa e guiante, incessante. Diante dos meus olhos, um espelho estilhaçado, e cada um de seus fragmentos espelhava um fracasso meu diferente, os quais eu nunca conquistei..."

(Dimas Gomes)

Wednesday, October 15, 2008

Baluarte

Minha arte é
Meu baluarte
Nela, sou
Intrépido
Vulnerável
Execrável, até
Exíguo e
Gigante ante
Mim
Mesmo
Sendo
Eu mesmo
Repetitivo
Repito (e vivo)
Na mira
Da ira
De mim
Mesmo
Assim,
Delongo o fim
À porfia
Do por fim e
À beira do
Fim
De mim.

(Dimas Gomes)

Sunday, August 31, 2008

Chabu



Deu chabu, só deu!
E quem perdeu fui eu...
Perdi a dignidade e a saliva quente
Na boca de uma libertina!
Minhas teorias conspiratórias
Só conspiraram contra mim mesmo
E cá estou, indignado,
Sem minha saliva quente
E sem minha libertina.


(Dimas Gomes)

Monday, August 18, 2008

Rimato

Daqui me parto,
Inepto e inexato,
Pra não dizer insensato,
Inócuo, porém... ingrato.

Assim, por alto,
Meu universo abstrato
É, de fato,
CHATO.

Mas além, mais além do tato,
No âmago do extrato,
É breve, de tão lato,
E mudo, de tão alto!

Veja eu: contraditório nato,
Entregue ao destrato,
Sem meios, nem sapato,
Sem fome, nem prato,
Solto, porém falto,
Harto, porém... Farto.

(Dimas Gomes)

Thursday, August 07, 2008

O Começo

("Tree of Life", de Esao Andrews)

D’onde vem?
D’onde ouço?

D’onde vim?

Responde, moço!
Que eu tô sem pá,
Tô sem ciência,
Tô tão tá, tão tô...
Tão só, tão literal,
Tão... sem.

Sem mim, sentir,
Sem vem, nem vir,
D’onde vim sentir?
Aonde vou sentir?
Aqui, no peito,
Peito fe-ri-do,
Peito a-ber-to,
Peito fechado.

D’onde sei?
E o que sei?
Sei de mim, sei sentir,
E de mim, só.
Só sei...

D’onde vem?
D’onde ouço?
D’onde vim?

Quero rés postas:
O fim é o começo.
E o começo é...

O fim.

(Dimas Gomes)

Monday, July 07, 2008

O Avesso do Universo

Vim do esgoto, submerso,
Transpassando os sete mares,
Percorri ilhas e vales,
Moroso, sujo, disperso,
Contando bens e males,
Cantando aos bons e reles
Sem nada em troca dar-lhes
E nada em troca peço.
Na busca de outros ares,
Novos improvisados lares,
Das flores – não me fales!
Das mágoas – não me cales,
Dos ratos me despeço.
Dos fatos me desfaço,
Os medos – nem disfarço!
A mim mesmo desenlaço
E para não mais embaraço,
Me perco no verso
Do avesso do Universo.

(Dimas Gomes)